quarta-feira, 13 de agosto de 2014

“Quem não tem prazer de penetrar no mundo dos idosos não é digno da sua juventude...”: para que essa virtude seja plena, precisamos nos debruçar sobre as lentes daqueles que deram suas vidas em prol de seus objetivos, reconstruindo uma nova história e legando para outras gerações seus saberes e fazeres.

É nesta ótica que, no bairro Cidade Nova, podemos encontrar um poço de sabedoria, simplicidade e conquistas. Seu nome: Maria Francisca de Jesus, carinhosamente conhecida por Maria de Chiquinha, nascida em berço humilde na região do Burí, município de Lagarto, em 1916. Aos dois anos, por querelas do seu genitor, teve que ser adotada por outra família. Seu Atanásio, pai adotivo, foi o responsável pelos primeiros ensinamentos, os quais, infelizmente,  duraram pouco, pois ainda aos 12 anos Maria chorava o passamento do homem que a acolheu.



Ainda jovem, aos 16 anos, apaixonou-se por um cidadão conhecido por Joca, o que seria o enlace que lhe daria 12 rebentos. Como andarilhos, moraram em algumas comunidades locais (Boa vista, Campo do Crioulo e Caraíbas) até se mudarem para a cidade de Tobias Barreto. Foi em Tobias que o percurso de sua história começou a traçar uma nova direção, já que, abandonada por seu cônjuge, viu-se diante da necessidade de lutar bravamente para assegurar uma vida digna a seus filhos.
De volta a Lagarto, sua cidade natal, foi morar mais uma vez no Alto da Boa Vista. Como era necessário buscar recursos, com muita força, determinação e coragem para vencer na vida, começou trabalhar em plantações de fumo. Lavar e passar roupas de pessoas da alta sociedade lagartense também foram fontes de renda em sua vida.

Com a construção da rodovia Lagarto-Simão Dias, foi preciso sair das intermediações, haja vista que sua simples casinha encontrava-se no destino da obra. Com a ajuda de Artur de Oliveira Reis, conseguiu um novo teto: a Cidade Nova receberia a sua nova moradora e futuramente símbolo dessa região. A luta para sustentação da família era realizada na feira de Lagarto, ainda localizada na praça Filomeno Hora; as vendas de bolos, beijus, cocadas, arroz doce, café, pães com manteiga e sarapatel, eram o meio de sustento.

O mercado mudou de localização, mas seu trabalho continuou. E foi neste novo espaço que dona Maria ouviu de uma feirante como produzir a sua principal especialidade: maniçoba. Sem dúvida, ela foi uma das primeiras a expandir o gosto da nossa peculiaridade alimentícia. Para tanto, sua casa se transformava em uma verdadeira praça de alimentação, recebendo clientes de todas as partes do município para degustar o prato típico da casa, produzido na batida constante e repetida da Mão de Pilão. A tradição de sua maniçoba fazia com que funcionários da empresa Maratá fizessem dos fins de tarde o momento de encontro e degustação do produto.

Ceias em noite de São João
Dona Maria também mostra que além da perspicácia nos toques culinários, sua vida também foi regada de outras paixões, entre as quais a religiosidade do povo nordestino, que sempre esteve presente em sua vida. Em período junino, eram tradicionalmente servidas as ceias, onde crianças eram levadas a sua residência para saborearem o velho e apetitoso Arroz com Galinha. A tradição de aproximadamente 15 anos teve de ser interrompida devido à fragilidade de saúde de Dona  Maria de Chiquinha, motivo, aliás, de tantas práticas costumeiras em décadas passadas estarem sendo renegadas ao esquecimento.

Hoje, aos 98 anos, a força não é mais a mesma, a agitação e a correria deram espaço ao descanso. Porém, o espírito contagiante ainda se faz presente, suas lembranças do passado surgem de forma espontânea, a saudade de outras épocas são destacadas em suas falas, a exemplo da tensão vivida na década de 30, ao recordar as possíveis chegadas do bando de Lampião a Lagarto, e da seca que castigou a sociedade. No entanto, sua maior saudade são das visitas que fazia aos enfermos, levando um pouco de carinho aos que necessitavam de sua companhia.

Sem dúvida, Dona Maria de Chiquinha por onde passou deixou seus vestígios, aflorando em cada espaço muitas amizades, respeito e atenção para com todos. É impossível olhar para o Bairro Cidade Nova, com toda sua agitação atual, sem mencionar o nome desse exemplo de mulher, cujos princípios dignificam o seu ser, cujas atitudes em outrora realizadas fazem dela uma referência de luta e amor à vida. Jamais poderemos mencionar o nome do bairro sem citar a importância de Dona Maria de Chiquinha, como mãe, cidadã e protagonista de uma fervilhante cultura popular, arraigada nos seus fazeres e tradições.

2 comentários:

josy disse...

A maniçoba mais saborosa chamava-se pelo nome " D.Maria Chiquinha "... Que saudade!!!!

Arthur França disse...

Essa e minha bisa amo MUITO VOCÊ