segunda-feira, 30 de julho de 2018
Sheslyn Gustava*

Em uma época carregada de fortes estereótipos sociais, normas, misérias, crises, sejam essas políticas ou econômicas, onde violência e desigualdade se faziam presentes em sua forma brutalmente crua e explicita como companheiras rotineiras e reguladoras comportamentais, principalmente no que se diz respeito à camada feminina da população, esta, tão desvalorizada e subjugada por todos, sendo meramente resumidas a objetos sexuais de seus maridos, escravas de seus próprios lares, e sem uma voz ativa para com suas próprias vidas, surge então um novo elemento causador de repugnância para alguns e em contrapartida, admiração e esperança de uma nova vida para outras: a mulher cangaceira.

Os integrantes do movimento do cangaço desde o seu surgimento até seus últimos anos, foram representados como “bandidos sociais” trazendo consigo os papeis de justiceiro e vingador, agindo contra o coronelismo e injustiça, causando a divisão de opiniões populares sobre a verdadeira natureza de seus atos, no entanto, na maioria das vezes a figura da mulher é esquecida pela mídia dentro dessa comunidade nômade, cuja mesma permitiu sua entrada a partir de Maria Gomes de Oliveira, mais conhecida como Maria Bonita, uma mulher divorciada que decidiu por conta própria abandonar a estabilidade com a família para estar ao lado de Lampião, causando assim uma quebra da tradição e a iniciativa de uma nova alternativa de vida dentro do grupo.

segunda-feira, 14 de maio de 2018
Por Marylia Loiola*
Reforçados pela infrutífera tentativa de omissão do resquício do cangaço pelo Governo Vargas, esse movimento nordestino foi por muito tempo estereotipado como um simples grupo de bandidos e criminosos que assolavam cidades, assassinavam pessoas, furtavam bens e estupravam mulheres. Essa visão negativa e limitada do cangaço ainda é compactuada por um número considerável de pessoas, sendo conceituada dessa forma até em muitos dicionários brasileiros. Assim sendo, o movimento do cangaço quebra os limites conceituais da língua e extrapola a todas essas classificações restritas na medida em que além de se configurar como meio de resistência ao governo da época, de caráter desigual e oligárquico, se fez instrumento de ascensão do espírito e da identidade nordestina, essencialmente brasileira.
Assemelhando-se com traços do nomadismo pré-histórico e ao mesmo tempo com os ideais libertários iluministas, os cangaceiros fizeram com que um movimento social armado e de resistência se tornasse um símbolo de força, de luta e de bravura contra a política coronelista brasileira através da formação de um grupo excêntrico de nômades nordestinos que criaram um estilo de vida próprio e particular, assumindo um “papel libertador” ao representar a camada rural e marginalizada, como pontua o historiador Eric Hobsbawm em relação a fenômenos como esse, tidos como formas de “banditismo social”.

E embora na visão legal e jurídica fossem vistos como foragidos e criminosos, analogamente os cangaceiros podem ser comparados, na vertente ideológica e social, às manifestações e tribos revolucionárias de contracultura que surgiriam na metade do século XX, como os movimentos hippie e punk. Ou seja, tanto estes quanto o movimento do cangaço, representaram personificações da liberdade ao romperem padrões e modelos socialmente estabelecidos e por criarem modos de vida próprios, guiados por objetivos e ideologias particulares, assim como visões inovadoras de mundo.

quarta-feira, 25 de abril de 2018
Por: Matheus Lima*
Cabeças dos cangaceiros na antiga escada da Prefeitura de Piranhas, Alagoas. Trabalho de: Rubens Antônio http://lampiaoaceso.blogspot.com.br

Lampião foi o pseudônimo de Virgulino Ferreira, um dos maiores criminosos da historiografia brasileira que, entre a década de 1920 até sua morte em 1938, submeteu o sertão nordestino á carnificina e á arbitrariedade mortal sob seu comando. No seu auge, mostrou-se um homem independente da sociedade a sua volta, um poder próprio superior á qualquer aparato social que ousava conter sua vontade, um ser temido, incompreensível, irrefreável e adornado por misticismo e superstição, uma verdadeira força da natureza. Contudo, como poderia um mero mortal conciliar sua humanidade com mãos tão cheias de sangue? Sob maior análise de sua vida, torna-se fascinante a dissonância entre as facetas de Virgulino, pai e católico fervoroso e ao mesmo tempo facínora assassino, e assim, mais interessante é a compreensão daquilo que ele tinha, grosseiramente, como sua ética.
segunda-feira, 10 de julho de 2017

Por: Pedro Dória

O longa-metragem, “O Menino do Pijama Listrado”, narra a história de um garoto chamado Bruno, conjuntamente com a sua família, no período histórico da Segunda Guerra Mundial, ápice do nazismo, na qual se ressalta no filme a utilização dos campos de concentração onde viviam todos aqueles definidos como não arianos, especificamente, judeus, ciganos, comunistas, testemunhas de Jeová, entre outros segmentos sociais, em condições extremamente desumanas e árduas.

Em primeira análise, o início do filme é marcado pelo transcurso de mudanças. Dessa maneira, Bruno e sua família são deslocados para uma área isolada próxima de um campo de concentração, até então desconhecido pelo garoto. Importante salientar que o próprio pai da família era oficial de alto escalão do grupo militar SS, reconhecida pelos seus ideais de forte adesão a Adolf Hitler. Ao longo das cenas, é demonstrada certa discriminação perante as pessoas residentes naquele campo, a exemplificar o trabalhador que o protagonista vê em sua casa, trajando roupas listradas (uniformes típicos dos marginalizados pelos nazistas), e sendo afastado e humilhado pelos familiares do garoto, a acentuar a curiosidade deste, pelos fatos que estavam a acontecer. Assim, com tais fatos expostos pelo filme, é notória a indiferença e a apatia exacerbada dos alemães diante da população por eles segregada injustamente.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Por: Gustavo Santos*

O filme “Dr. Fantástico”, dirigido pelo cineasta Stanley Kubrick e lançado em 1964, apresenta as configurações, em tom jocoso, do período conhecido como Guerra Fria, quando os grandes sistemas políticos mediram esforços em diversas esferas. Nesta obra, a trama se inicia com o inesperado ataque soviético em território americano, que, por consequência, exigia retaliação máxima, de forma a eliminar os possíveis danos.

É nessa perspectiva que se apresentam algumas personagens fundamentais, como o general Ripper e o comandante Mandraque. O oficial de maior patente encontra-se enfurecido com a guerra e emite alerta de emergência, alegando retaliação ao ataque dos “russos”. Comando atendido, 34 aviões portadores de ogivas nucleares são enviados em direção ao bloco comunista, com ordens de lançar os mísseis imediatamente. Essa cena, particularmente, remonta à Crise dos Mísseis em Cuba, dois anos antes da exposição da obra, quando caças americanos entraram em solo soviético, levando a extinta URSS a instalar mísseis em Cuba sob a iminência de ataque, a poucos quilômetros dos Estados Unidos.