segunda-feira, 14 de maio de 2018
Por Marylia Loiola*
Reforçados pela infrutífera tentativa de omissão do resquício do cangaço pelo Governo Vargas, esse movimento nordestino foi por muito tempo estereotipado como um simples grupo de bandidos e criminosos que assolavam cidades, assassinavam pessoas, furtavam bens e estupravam mulheres. Essa visão negativa e limitada do cangaço ainda é compactuada por um número considerável de pessoas, sendo conceituada dessa forma até em muitos dicionários brasileiros. Assim sendo, o movimento do cangaço quebra os limites conceituais da língua e extrapola a todas essas classificações restritas na medida em que além de se configurar como meio de resistência ao governo da época, de caráter desigual e oligárquico, se fez instrumento de ascensão do espírito e da identidade nordestina, essencialmente brasileira.
Assemelhando-se com traços do nomadismo pré-histórico e ao mesmo tempo com os ideais libertários iluministas, os cangaceiros fizeram com que um movimento social armado e de resistência se tornasse um símbolo de força, de luta e de bravura contra a política coronelista brasileira através da formação de um grupo excêntrico de nômades nordestinos que criaram um estilo de vida próprio e particular, assumindo um “papel libertador” ao representar a camada rural e marginalizada, como pontua o historiador Eric Hobsbawm em relação a fenômenos como esse, tidos como formas de “banditismo social”.

E embora na visão legal e jurídica fossem vistos como foragidos e criminosos, analogamente os cangaceiros podem ser comparados, na vertente ideológica e social, às manifestações e tribos revolucionárias de contracultura que surgiriam na metade do século XX, como os movimentos hippie e punk. Ou seja, tanto estes quanto o movimento do cangaço, representaram personificações da liberdade ao romperem padrões e modelos socialmente estabelecidos e por criarem modos de vida próprios, guiados por objetivos e ideologias particulares, assim como visões inovadoras de mundo.



Essa questão também pode se relacionar à “teoria da rotulação” e à “questão do desvio” discutida pelo filósofo Howard Becker, em seu estudo do interacionismo simbólico, que defende que os comportamentos sociais não devem ser guiados através da imposição de padrões e visões estereotipadas determinadas pela sociedade, a qual define o que é “certo” e “errado” e condenam os que desviam dessa conduta, mas sim pela interação entre indivíduos, livres e autodeterminados a guiar-se por noções próprias e subjetivas de tipos comportamentais e estilos de vida. Dessa forma, os cangaceiros não seriam vistos como desviantes, mas como detentores de uma ideologia diferente das condutas morais impostas.

Outro fator marcante presente na história do cangaço é a relativa emancipação do poderio feminino, que embora muitas mulheres tenham sido violentadas por cangaceiros, elas conseguiram quebrar as fronteiras do cangaço, constituído estritamente por homens, e puderam participar dele, mostrando que também possuíam coragem, força e vontades próprias.

Entretanto, a razão de o cangaço ser tão famoso e valorizado talvez seja pela maneira que retrata a particularidade e a excentricidade da rica cultura nordestina, a qual marca a identidade e a nacionalidade de um povo único, seja através das roupas que os cangaceiros costumavam usar, seja pelo linguajar, pelos hábitos e tradições, pela forte ligação com a música, pelas habilidades, pela astúcia, pela fé, pela parceira e companheirismo entre eles, fatores que caracterizam a força, a bravura e a energia do Nordeste brasileiro.

Dessa maneira, as cabeças cortadas de Lampião (Rei do Cangaço), assim como dos outros cangaceiros, à moda francesa, não representaram a morte da história e da marca deixada por eles, já que a cultura do cangaço está viva até hoje e reascende o ufanismo brasileiro escondido pela intensa cultura estrangeira conferida pela Globalização. Portanto, a cultura do cangaço faz com que o nacionalismo brasileiro e a sensação de pertencimento sejam renovados através da lembrança de que em uma parte da veia de cada brasileiro pulsa o sangue do inigualável cangaço.

Marylia Loiola Santos, é aluna do 3º Ano do Colégio José Augusto Vieira.

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