quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Uma crônica para o tempo

Por JOSÉ UESELE O. NASCIMENTO


Corria o ano de 1999, ano de descobertas e aprendizados. Particularmente, a partir de um encontro inesperado, meus olhos míopes começavam a enxergar largamente. O ambiente era familiar, sala de aula do colégio Polivalente. Estava cursando a 8º série do Ensino Fundamental com colegas e amigos, parceiros de longas datas, e de divertidas conversas e gozações nos corredores e pátio do colégio.

A sala de aula é um espaço mágico, ali aprendi as primeiras letras, a ler, a desenhar, contar e colorir meu mundo interior. Tínhamos cinco horários ao longo da manhã, em que professores entravam e saiam deixando seu recado e depositando em nossa aquarela tons de conhecimentos diversos, o mundo se descortinava diante dos nossos olhos. Ah, as coordenadas geográficas e o passeio pelos continentes deixava-nos ávidos para conhecer o mundo, ali também (no solo sagrado da sala de aula) eram plantados sonhos, como conhecer o céu, as galáxias, ser um cientista notável ou um escritor renomado, quantos sonhos e pensamentos invadiam nossas mentes naqueles curtos 50 minutos (intervalo de um horário de aula), onde deslizávamos por textos em prosa e verso e descobríamos como versar e redigir nossas aventuras pueris. Os números, as equações, as fórmulas ficávamos zonzos com tudo aquilo, quadro cheio de contas e mais contas, números e mais números.

Mas, alguns personagens transformaram nossas vidas de adolescentes em transição decisivamente. Mestres inesquecíveis, verdadeiras forças potencializadoras, responsáveis diretos por quem somos hoje. Lembro-me como se fosse hoje quando o professor Fernando Bezerra entrou em nossas vidas, sua imagem aparentemente bizarra (magro, alto, cabelos longos e com barba por fazer) causava um magnetismo, seu jeito eloquente e sua expressividade nos prendiam a suas aulas de tal forma que sentíamos fascinados por aquela figura risonha e cativante. Suas aulas eram verdadeiras “lições de vida”.

Ele com seu jeitão diferente de comunicar por gestos e palavras transformava-se em diversos personagens da História diante dos nossos olhos, mexia com nossa imaginação, e sua voz grave entrava em nossos ouvidos ao pronunciar seu carinhoso bordão “Mamãe!” (uma homenagem que fazia a sua terna mãezinha que foi silenciada quando de sua partida para a casa dos anjos) – essa expressão era apenas para chamar a atenção dos mais inquietos. O professor Fernando tinha uma magia peculiar e uma forma de dar aulas que encantava a todos, pois, transformava um simples giz de cera em personagens históricos, o birô em embarcações gigantes. Ele tinha uma forma envolvente de ensinar, lembro bem que quando queria falar sobre as classes sociais de um determinado período da história humana, ele chamava os alunos lá na frente, até os mais tímidos eram seduzidos por seu carisma e começava a exemplificar dando vida ao passado, que se materializava diante de nós.

A gente aprendia brincando, e não tinha esse que não caísse na gargalhada com seus exemplos hilários, ele falava com o corpo e creio que seu diferencial era apenas esse: dar aula com a vida, com entusiasmo, com alma, de um jeito alegre e vibrante e com um toque de humanidade, inserindo valores para o bom convívio social. Tanto é que nunca o vi triste, suas aulas iam além, seus recursos eram apenas o quadro, o giz e poucas vezes o livro didático; algo curioso, simplista e revolucionário que aprendemos com o grande mestre: foi começar o assunto pelo entendimento dos TÍTULOS dos capítulos, algo prático, nos ensinando que História se apreende pelo entendimento de conceitos, assim tudo ficava mais fácil.

Soube utilizar muito bem no espaço da sala de aula a pedagogia do afeto e a didática da simplicidade, irrigava com seus exemplos de vida nosso ser interior, e posso dizer que saíamos pessoas melhores depois de suas aulas. Ensinava que a educação “era um meio de tornar as pessoas menos ignorantes”, aprendi várias coisas com o velho e bom mestre, aprendi a ser gente, e todos que tiveram a dádiva de tê-lo como professor aprenderam a ser mais tolerantes, a enxergar a vida com outros olhos, com os olhos da inclusão; aprendemos a ser críticos e conscientes diante de uma sociedade doentia.

Seus ensinamentos transpuseram os limites dos muros das escolas por onde passou, pois ele vibrava com nossas vitórias, nos impulsionava a sonhar e quantos não mudaram de vida com suas palavras de alento e incentivo, com o seu “vai..., você é capaz”, “Eu acredito em você!...” Essa motivação incondicional foi a bússola interior para muitos. Com gestos inesperados de um mestre fascinante, ele agia com sabedoria até mesmo nos momentos de tensão, ao surpreender um aluno no ato de cola, por exemplo, o professor Fernando chegava para ele e dizia discretamente “você não precisa disso não, cara! vá lá leia com calma, você consegue, acredite!“

Alguns momentos pulsam em minha memória, como o dia em que ele pediu que fizéssemos a história de como nossos pais se conheceram até nossa vinda ao mundo, o mais importante não foi a tarefa, mas a vibração diante do relato de amor, pois sabia que a família é o primeiro alicerce na vida de todo ser humano. E ao falar da própria família, como bem maior e precioso, nos levou inconscientemente a amar nossos pais e a querer fazer de nosso lar um ambiente de amor e devoção. Suas histórias invadiam nossas almas, transformava nosso cotidiano, mudava a rota de nossas vidas. Suas lições e seu exemplo foram sementes de otimismo em momentos de desesperança.

Hoje, sou professor devido a suas lições e ao ensinamento de outros tantos que dedicam sua vida a arte nobre de ensinar o que sabem, e impulsionar vidas. E esta longa caminhada não nos distanciou, quando o encontro, nosso diálogo serve de bálsamo para minhas retinas e sirvo-me dessa fonte de sabedoria para continuar meu itinerário, que está apenas começando, de esperanças de ver o mundo melhor. Por essas e por outras razões...

...o Professor Fernando Bezerra foi um mestre no mais alto sentido do termo ao surpreender seus alunos, instigando-lhes a inteligência, estimulando-os a pensar criticamente; por isto era apreciado e procurado para partilhar suas dores e frustrações cotidianas. Ele sempre será lembrado como um oceano de inspiração para as novas e futuras gerações de educadores, pois marcou eternamente a história dos seus alunos.

1 comentários:

Moacir Poconé disse...

Maravilhosas palavras a um mestre que honra o verdadeiro sentido desse vocábulo. Parabéns ao professor José Uesele pelo texto. Parabéns ao professor Fernando pela merecida homenagem.